O que têm em comum o FC Porto, o Marselha e o AC Milan? Os três foram condenados por corrupção, consubstanciada no suborno a árbitros e adulteração da verdade desportiva e dos resultados dos jogos.O que é que diferencia os três casos? O Marselha desceu de divisão, perdeu a única Taça dos Campeões Europeus que tinha ganho e o seu presidente, Bernard Tapie, antigo ministro francês, foi para a prisão; o AC Milan desceu de divisão e ficou fora das competições europeias; o FC Porto perdeu 6 pontos, sem consequências desportivas, e o seu presidente, Pinto da Costa, teve uma suspensão de 2 anos, sem quaisquer efeitos práticos.O que distingue França e Itália de Portugal? Os dois primeiros pertencem ao pelotão da frente da Europa civilizada.Mais do que os estragos na imagem de um clube, o FC Porto, e de um dirigente, Jorge Nuno Pinto da Costa, o que vai resultar de mais negativo e de mais perene na sanção hoje conhecida, aplicada pela Comissão Disciplinar da Liga, é a mancha – qual maré negra – lançada sobre a imagem de um País que se apresta para disputar um Campeonato da Europa, no próximo mês.A já de si descredibilizada estrutura do futebol português sai também fortemente penalizada pelas decisões hoje anunciadas. Foram anos e anos de deixa andar, de assobiar para o ar, de fechar os olhos às evidências.Aqueles que diziam que era preciso provar o que se dizia em voz baixa e por palavras cifradas, crentes de que iam viver sempre na mais completa impunidade, tiveram o que pediam: as provas de um "crime" que quase liquidou o futebol português. As suspeições, afinal, eram fundadas.Cobertos de vergonha pelo que a imprensa internacional vai escrever de Portugal e do futebol português, temos, contudo, de olhar em frente e acreditar que o dia de hoje é histórico e pode ser um ponto de viragem na credibilização do nosso futebol.Dias da Cunha, ex-presidente do Sporting, teve aos microfones da TSF as palavras certas na altura certa. Disse, com uma clarividência que faz falta ao futebol português, que os jogos agora provados como viciados são apenas a ponta do iceberg de anos a fio de viciação da verdade desportiva.E disse mais. Que muita da "porcaria" que hoje foi provada podia ter sido mais cedo limpa se não se tivesse ignorado o "Manifesto", subscrito por si e pelo presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, para a defesa da credibilização do futebol português. "Está lá tudo, vão lê-lo", disse Dias da Cunha, apontando o dedo ao secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, por ter travado a implementação desse documento.Agora, enquanto o FC Porto diz que não vai recorrer da sanção, assumindo assim a culpa pelos actos de corrupção cometidos, e o presidente da Comissão Disciplinar da Liga diz que se os regulamentos fossem outros a penalização adequada seria não a perda de pontos mas a descida de divisão, o país assiste atónito à defesa dos acusados. O que vale é que a gente já os conhece de ginjeira. Lá se foi o G-14, mais o convívio com os grandes da Europa.Luís Filipe Vieira e António Dias da Cunha são, esta noite, dois homens de consciência tranquila. Não estão felizes, porque temem os estragos que isto pode acarretar à imagem internacional do nosso futebol. Mas sentem que deram um contributo inestimável para que a indústria do futebol em Portugal possa tornar-se verdadeiramente rentável para todos os clubes. Isso só se consegue com dirigentes credíveis que garantam a verdade desportiva e um jogo limpo.
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